terça-feira, 29 de julho de 2014

O papel (e a borracha) dos pneus na Hungria


Eu acho muito interessante a atenção que a Pirelli dá às redes sociais. Sempre postam, no Twitter e no Facebook, dados interessantes sobre os GPs. Antes, postam informações sobre a corrida do ano passado, dando uma referência ao público; depois, postam esse tipo de infográfico, mostrando as paradas, os pneus e o tamanho dos stints. Perco algum tempo dando uma olhada neles. Numa corrida com estratégias tão decisivas, é válido fazer uma análise.

Divido em tópicos o que achei mais importante.

  • Ricciardo ganhou ao escolher uma estratégia sensata, usando pneus macios sempre. Já tinha tudo encaminhando quando o safety-car lhe deu a ponta, só precisava administrar. Alonso e Hamilton podem ter sido imprevistos, mas brilhantemente contornados pelo australiano, o piloto-carisma.
  • Alonso foi um monstro, mesmo. Seu stint com macios durou mais que o de duros do Hamilton, por exemplo. Comparando com Massa, fica mais insano: o brasileiro fez dois trechos com os pneus brancos, ambos mais curtos que o de amarelo do espanhol - e com menos ritmo. Justamente o contrário do normal.
  • O brasileiro, aliás, deveria rever algumas coisas. Gasta muito a borracha, e isso é fato desde a chegada da Pirelli, em 2011. Esse problema não existia com a Bridgestone. Assim, fica difícil pensar em estratégias mais audaciosas, como poderia ter acontecido no Canadá. Lembrando também que colocar pneu macio no último trecho poderia lhe garantir uma vida mais fácil contra Räikkönen (mas não lhe garantiria nenhuma posição a mais, não se iludam).
  • Rosberg só usou pneus novos nas últimas voltas, onde seu desempenho foi assombroso. Antes, com pneus já usados na sexta e no sábado, foi mediano. Tivesse usado os zero-bala no meio da corrida, poderia ter passado Hamilton - sem usar o rádio - e terminar no pódio. O desempenho bom no final foi em vão, praticamente.
  • Räikkönen também deu seu show com os pneus, e sem uma grande perda de ritmo. Aliás, melhor corrida do finlandês no ano. Pode ser a surpresa do fim da temporada - ou não.
  • Bottas fez o que Massa devia ter feito, usou os macios no fim. Mas não ajudou nada, sua corrida já tinha sido jogado fora quando Ericsson trouxe o safety-car.
  • Um troféu para a McLaren. Tinha chances de fazer bons pontos com os dois carros e terminou com um décimo lugar de Button. A estratégia tosca de usar intermediários com a pista já majoritariamente seca custou posições, tempo e paciência dos pilotos dos carros 20 e 22.
  • Nem nesses dias estranhos a Sauber consegue algo. Sutil, macios teve umas 15 voltas colado em Button, duros, e não passou. Segue em branco, a equipe suíça.
  • Mas o recorde de mais voltas com os mesmos pneus é de Chilton, não adianta. 37, um absurdo, uma lenda, um mito.
  • Todavia, o recorde de mais voltas sem pits, no geral, pertence a Kvyat. 40 voltas com pneu duro, enquanto tentava se recuperar do motor apagado na largada.
  • Uma corrida muito boa, no geral. Pneus foram protagonistas de um jeito que ainda não tinhamos visto em 2014. Receio que, não fosse a chuva, não seria tão divertido: seria só uma passeata de Rosberg com o Hamilton conquistando posições aos poucos. Melhor GP da Hungria desde 2006, com sobras.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Mais de mil palavras - O México voltou (e mudou)


Vocês já devem estar inteirados. O México voltará a fazer parte do calendário da F1 em 2015. É o fim de uma espera de 23 anos para um povo que é apaixonado pelo automobilismo. A etapa deve ser realizada no final do ano, próximo à corrida dos Estados Unidos, no nem tão distante circuito de Austin. A casa é o bom e velho Hermanos Rodríguez.

Vem no melhor momento possível: o México tem um piloto estabelecido no grid da F1 - ainda existem dúvidas sobre a qualidade do Pérez, mas ele já está em sua quarta temporada - e um senhor chamado Carlos Slim que tem dinheiro até dizer chega. O país latino ainda não está nem perto de ser rico ou desenvolvido, mas Bernie adora esses super magnatas de lugares questionáveis.

O cenário vai ser bem diferente daquele com o qual nos acostumamos. E muito: a primeira mudança exigida foi o fim da curva Peraltada, pelo menos na sua forma antiga. Colocarão duas curvas de 90 graus para diminuir a velocidade num trecho que quase não tem área de escape. Boxes vão ter que ser reformados, já que o circuito só vinha recebendo etapas de campeonatos nacionais e regionais. Não há estrutura para comportar o estilo refinado da F1 atual.

Vai ser curioso ver um circuito tão lembrado pelo passado da categoria voltando para os novos tempos. O Red Bull Ring só passou onze anos fora. Como disse antes, foram 23 sem o México.

Ontem era Senna, Mansell, Berger e Prost; uma arquibancada repleta de fãs simplórios metros distantes da pista; patrocínio de cigarros; brita; pits de 15s; mecânicos usando calção e camisa polo; Onyx e Osella; Gachot e Ghinzani; saudades do Hector Rebaque.

Amanhã vai ser Hamilton, Rosberg, Vettel e Alonso; uma arquibancada com fãs coxinhas; patrocínio de energéricos; asfalto; pits de 3s; mêcanicos usando macacões e capacetes; Marussia e Caterham; Chilton e Ericsson; torcida pelo Pérez.

Vão ser dias bem diferentes, esses do GP do México de 2015.

domingo, 20 de julho de 2014

Feelings - GP da Alemanha


  • Rosberg confirmou os prognósticos e venceu com tranquilidade, sem correr riscos. Sua única preocupação foi evitar que, ao fazer seu primeiro pit-stop, Hamilton tomasse a frente, rápido que estava. Não aconteceu, e daí pra frente a corrida ganhou ares de desfile para o piloto monegasco finlandês alemão.
  • Hamilton estava on fire. Trocou o câmbio, para delírio da turma do #WhyAlwaysHamilton, e largou em 20o, na companhia de Chilton. Daí pra frente, só alegria. Mesmo com pneus duros, ia para cima, ultrapassava, batia, ultrapassava mais um pouco, perdia um pedaço da asa. No geral, uma performance para tirar o chapéu. Mas a estratégia não foi boa. Seria mais inteligente usar pneu duro no último stint, ao invés de se sujeitar a dois pits para por pneus macios. No fim, a velocidade final de Bottas acabou com qualquer chance de dobradinha da Mercedes.
  • Que corrida do Bottas. Seguro, maduro, confiante. Ao lado de Ricciardo, é a grande revelação de 2014. Passou a corrida toda em segundo, o que é espetacular, lembrando que ele já vinha de dois pódios. Tem 91 pontos, enquanto...
  • Massa tem 30. Enquanto Massa bate, enquanto Massa capota. Um toque com Magnussen jogou tudo fora em questão de metros. Os dois erraram, mas talvez fosse mais esperto da parte de Felipe uma performance mais conservadora, já que precisa - mais do que tudo - de resultados. Precisa de uma benzedeira.
    Whoops...
  • Alonso faz uma temporada abaixo do normal, mas constante. Pontua sempre e agora também se diverte. Depois daquela super disputa com Vettel, outra digna de elogios com Ricciardo. Dois pilotos de alto nível fazendo tudo que podem por mais pontinhos. É o que restou, mas esse serviço é feito com primazia. Os dois vêm batendo os companheiros constantemente.
  • Uma breve nota sobre Vettel: em casa, foi burocrático. Fez a sua parte, mas nunca muito mais brilhante que isso. Pelo menos ficou na frente de Ricciardo, coisa que nunca tinha alcançado sem um abandono de Daniel.
  • Force India sofre um pouco. Depois de performances grandiosas nas primeiras corridas, um retrocesso. Vai catando as migalhas de nonos, décimos lugares, enquanto vê uma McLaren crescendo e quase tomando o quinto lugar no campeonato de construtores. Quando voltarmos às pistas rápidas - Spa e Monza - deve voltar aos bons dias. Hungaroring será tão meia-boca quanto Hockenheim.
  • Räikkönen, outro fiasquinho. Sempre que eu olhava pra TV, lá estava ele sendo ultrapassado, em primeiro ou segundo plano. Uma xicará de café, uma ultrapassagem; uma ida ao banheiro, outra ultrapassagem. Terminou em 11o, o que representa bem o seu ano: medíocre.
  • Maldonado quase pontuou, eu juro. Não tive uma alucinação, não preciso de óculos. Mas depois perdeu ritmo e terminou em 12o. Pelo menos tem um contrato para 2015 - só porque eu disse que isso não aconteceria no último post.
  • Sutil chamou a atenção. Não por causa de uma super-performance, mas por que rodou sozinho. O carro ficou atravessado na pista, o safety-car parecia óbvio, mas não entrou. A turma da conspiração - que é a mesma do #WhyAlwaysHamilton - já concluiu que foi para evitar os riscos de Rosberg perder uma corrida em casa. Talvez, é difícil dizer. Situações bem menos escandalosas já exigiram a intervenção. Ficamos com uma pulga atrás da orelha.
  • A chuva ficou só na vontade. Choveu antes, choveu depois. Podia embaralhar as coisas. Uma pena, já que a última corrida molhada foi na Malásia, ano passado.
Aplausos
Piloto do dia: Hamilton, que escalou o grid como poucos fariam. Tem um carro bom, mas isso não significaria nada sem uma pilotagem acima da média. Garantiu o entretenimento do GP.

Equipe do dia: Williams, que não pára de evoluir. Óbvio que a Mercedes ainda é melhor que todos, mas o FW36 teve um dia muito bom para uma pista que não é a mais veloz do calendário - sua especialidade. Um certo piloto brasileiro deixou a desejar, mas o trabalho da equipe é impressionante e digno de comemoração em Grove. Aliás, hoje conseguiu seu pódio 300.

Piloto lamentável do dia: Räikkönen, dono de uma pilotagem mais feia que as sobrancelhas do Alonso. Simplesmente não está funcionando dentro da Ferrari. Bianchi sorri.

Equipe lamentável do dia: Sauber, que só afunda na mão de seus pilotos sem brilho e seu carro problemático.

sábado, 19 de julho de 2014

Feelings - Treino do GP da Alemanha

  • Pole do Rosberg, mas não foi tão tranquilo ou óbvio. Levou uma pressão nos últimos minutos. Não de Hamilton, mas sim de Bottas. Em certo instante, ver a Mercedes sem a pole em casa parecia realidade. Mas foi só impressão: com ou sem FRIC, o W05 ainda é o melhor carro.
  • Mas aonde estava Hamilton, se não brigando pela pole? No centro médico. Uma pancada de respeito nas curvas do estádio foi o suficiente para quebrar aquela tranquilidade da vitória em Silverstone. Largando em 16o, virou azarão. Eventualmente vai aparecer entre os cinco primeiros mas, em condições normais, o pódio é duvidoso. O ritmo das Williams está bem acima do que se esperava. Se não for pro tudo ou nada, volta a ver a vantagem de Nico crescer bastante.
  • Sem palavras para o ritmo das Williams. De Bottas, em especial. Deu um sufoco em Rosberg e os dois pilotos são sérios candidatos ao pódio, mesmo que essa pista não seja tão favorável para o carro inglês. Sou leigo quanto a suspensão, mecânica de um F1, mas vejo a Williams como a grande favorecida com o fim do FRIC.
    Surpresinha
  • Magnussen merece aplausos. Segunda corrida consecutiva em que larga no Top 5, mas dessa vez com o companheiro sendo eliminado no Q2. Nas pistas que conhece melhor, fruto de anos no automobilismo de base, ele cresce. Aliás, palmas para a McLaren, cujo carro dá sinais de melhora.
  • Button pode estar vendo sua carreira desmoronar. Me lembro que todos achavam que sua vida sem Hamilton como companheiro de equipe seria facilitada, que poderia ganhar outro título. Nada disso aconteceu, muito pelo contrário. E não é só porque o carro não é tão bom. Jenson vem decrescendo ao longo do ano, virando um piloto meio burocrático. Pode estar sendo aposentado pelo Magnussen. Já é um forte candidato à temporada 2015 do seguro desemprego.
  • Red Bull, mesma coisa. Sempre muito perto, sempre muito longe. Faz o arroz com feijão, tentando levar pontos para casa. Ricciardo bateu Vettel, mas não sei se pode bater os que estão adiante. Torcem por chuva
  • Se Magnussen aposenta Button; Kvyat aposenta Vergne. O russo vem sendo uma constante no Q3, batendo o francês, que nunca foi muito bom em voltas rápidas. Só falta transformar isso em pontos, e amanhã é um bom dia para tal.
  • Force India ficou meio abaixo. Nunca teve muito conforto, sempre passando de fase com dificuldades. Hoje, não teve como escapar do fundão do Q3. Sua esperança é que faça muito calor e eles possam montar uma estratégia com menos pit-stops.
  • Raikkonen está de saco cheio. Quer ir para casa, fazer outras coisas. Tá louco para ver a temporada acabar. Só isso justifica essa apatia. Outra vez foi presa do Alonso, outra vez ficou pelo caminho. Bianchi sorri.
  • Maldonado conseguiu a proeza de ficar atrás de uma Marussia. Merece aplausos. Temporada mais bisonha dos últimos tempos, dentre todos os pilotos, com sobras. Só um milagre, uma reencarnação de Chávez mantém ele na F1 em 2015.

E Amanhã?
  • Com tempo seco, dá Rosberg, com Bottas em segundo. Com chuva - uma possibilidade real - embaralha tudo: Williams diminui e Red Bull cresce. 
  • Nessa situação, seria uma corrida acidentada: os pilotos ainda não correram sob chuvas com esses carros, quando muito fizeram treinos. Ainda existe uma possibilidade de erros bem grande.
  • Hamilton torce por tempo seco. Sob chuva, não terá a ajuda amiga do DRS para escalar o grid - como Vettel em Abu Dhabi - 2012.
Aposta do autor
  • Tempo seco: ROS - BOT - VET
  • Tempo chuvoso: VET - ROS - MAG (é improvável, mas é uma aposta)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sim, Caterham, pode piorar


A Caterham é, de longe, a equipe mais lamentável do grid atual. Você pode achar ela simpática justamente por ser pobre e desprezada, mas não há de negar que esse é justamente o talento dela - ser backmarker. 

Nesses últimos dias a equipe anglo-malaia chegou em um novo nível de pobreza: foi vendida no meio da temporada, atitude nível "equipe dos anos 80 que não passava da pré-classificação". A última que passou por isso foi a cômica MF1, que antes do fim da temporada virou Spyker. Mas era uma equipe recém fundada, isso poderia acontecer, paciência.

A Caterham é, até certo ponto, uma equipe estabelecida e com cinco anos de experiência no bolso. Nunca fez nada, mas até duas temporadas atrás era a mais promissora daquele trio que estreou em 2010. 2013 e 2014 foram suficientes para derrubar um avanço que, apesar de mínimo, existia.

Agora, o futuro. A equipe perdeu, já no GP da Inglaterra, dois dos seus patrocinadores mais interessantes: Airbus e GE simplesmente sumiram da asa-traseira e dos sidepods, respectivamente. Só sobrou a Dell, mas não sabemos até quando. Em contrapartida, tem o tal conglomerado árabe-helvético (sério, como essa combinação pode dar certo?) que promete investir muita grana - como todo mundo ao entrar na F1. Também teremos mudanças administrativas, como a volta de Colin Kolles, aquele que acumula fracassos na F1. Além de Christijan Albers assumindo como chefe de equipe - vale lembrar que o cara era piloto até ontem.

Kolles, o salvador (cof cof)
Não sei porque alguém sugeriu a Albers, que nem sabe sair dos boxes direito, dirigir uma equipe de F1. Ele não tem experiência e logo de cara vai assumir uma equipe presumidamente falida. Na verdade, ver ele pilotando uma Caterham até poderia fazer algum sentido, mas não vai rolar. A pessoa que o aconselhou a seguir esse caminho deve ter sido a mesma que disse para Marco Mattiacci que vender carros nos EUA e ser chefe de equipe na F1 não são coisas tão distintas assim.

E os problemas não se resumem à cúpula da equipe. Ontem foi anunciado que quase 50 funcionários da Caterham foram demitidos, num triste processo de destruição que nós ainda não sabemos onde vai terminar. Ou melhor, nós sabemos, só não queremos ser taxativos tão cedo. Parece que, independente de quem esteja no comando, as rédeas não estão controladas. Eu sei que é muito cedo, mas o caso exige alguma urgência.

Vale lembrar que, mesmo sendo o pior do grid, o CT05 não é exatamente o carro menos competitivo da história da F1. Ericsson, costumeiramente mais lento que Kobayashi, tende a ficar em torno de uns 5s atrás do pole em voltas rápidas. Ainda não chega aos absurdos 10s de diferença que eram registrados nos anos 80, mas é o caminho. O 107% não está tão longe assim. Na verdade, esse limite já foi alcançado no GP da Inglaterra, mas muito por causa das condições climáticas, que confundiram e misturaram o grid. Não chega a ser a condição real, mas várias equipes enfrentaram esse problema e só a verde passou do limite.

Dias difíceis
E os pilotos também não são essas maravilhas. Ericsson é lento e acidentado, simples assim. Kobayashi é mais rápido, erra menos, mas também não é nenhuma Brastemp. Não fosse o dinheiro dos fãs, não teria voltado ao grid. E já faço uma aposta, de que um dos dois será demitido em breve, talvez durante as férias de agosto. Carlos Sainz Jr., filhote da Red Bull, está em busca de um lugar para começar a carreira na F1 e já está negociando com os novos donos da Caterham.

Entra no lugar de quem? É cedo para dizer, mas aposto no Ericsson sendo demitido. Kobayashi não é tão cabaço quanto o sueco, acho que se sustenta. De qualquer forma, o clima na equipe de Leafield é de incerteza, seja para pilotos, seja para funcionários.

Fico pensando em algum funcionário da Caterham, triste ao ver a Marussia marcando pontos, olhando para o céu e se perguntando: "meu pai, tem como piorar?". Sim, tem como. E já piorou.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Trulli, 40 anos


Ontem, 13/07, foi aniversário de um dos maiores ícones da F1 nos anos 2000. Jarno Trulli, também conhecido como chicane ambulante, nunca logrou muito sucesso, mas sempre estava lá. Pontuava, ia ao pódio, fazia seu serviço com mais dignidade que muitos. Não é por acaso que alguém larga 252 vezes, sendo o sexto piloto com mais GPs na história da categoria.

São 40 anos de Trulli, natural de Pescara e último piloto italiano da F1. Como 40 é um número marcante, a forma deste blog homenagear Jarno é dividindo a vida dele em quatro partes e citando quatro pontos chave de cada. Eu não sei qual o significado numerológico do número 4, mas faz algum sentido. Falemos do aniversariante, pois.

O começo

Trulli não era exatamente alguém muito importante em 1995. Tinha feito um bom ano de estreia na F3 alemã, além de algumas corridas esporádicas nas F3 italiana e inglesa. Mas isso não lhe dava muitos créditos na hora de disputar o seu primeiro GP de Macau, corrida mais tradicional do automobilismo de base. Por mais futuro que ele tivesse, era apenas um entre muitos.

Mas ele logo tratou de chamar a atenção. No treino, se classificou em segundo, apenas atrás de Ralf Schumacher, que já tinha disputado a corrida em 1994 e tinha mais experiência. Na própria F3 eles já tinham se enfrentado diversas vezes. Num grid com 30 pilotos, largar na primeira fila em um circuito de rua é decisivo.

Mas Jarno foi além: tomou a liderança logo nas primeiras curvas. Num momento de rara agressividade, começou a zigue-zaguear para evitar que Schumacher pegasse seu vácuo e revertesse a manobra. Após, caos.

youtube.com/watch?v=McybGNbAmnI
Exceção feita aos três ponteiros, ninguém mais conseguiu seguir adiante. Um acidente de maiores proporções, presente de Norberto Fontana, foi suficiente para bloquear as estreitas ruas de Macau. Bandeira vermelha, obviamente.

A primeira largada foi anulada e Trulli teria que tentar tomar a liderança outra vez. Outra vez ele larga melhor que Schumacher, mas o alemão faz uma excelente manobra por fora que o garante a ponta da corrida, para não mais perder. Poucas voltas depois, um acidente envolvendo Hélio Castroneves trouxe outra bandeira vermelha. Como já estava anoitecendo, não teve mais corrida. Poderia ser uma corrida mais feliz para Jarno, mas ficou de bom tamanho para a primeira vez em Macau. Ele retornaria em 1996, terminando em terceiro.


A ascensão

Em 1999 Trulli já tinha dois anos de F1 no currículo e vinha para sua terceira temporada com a Prost, uma barca que todos suspeitavam que era furada, mas ninguém admitia. Seria mais um ano de alguns parcos pontos. Isso até o GP da Europa.

Trulli fechou o treino oficial em décimo lugar, cinco atrás de Panis, companheiro de equipe. Mesmo perdendo para sua referência, era bem melhor que a média da equipe. Com sorte, daria para brigar por umas migalhas.

Um carro lindo
Mas não parecia ser um dia muito bom, a princípio. Trulli perdeu duas posições na largada, se estabelecendo em 12o, enquanto Pedro Paulo Diniz era retirado da pista depois de um acidente feio. Emperrado no meio do grid, seria um dia meio difícil, mas o acaso ajudou.

Começou a chover no meio da corrida. Hakkinen, Panis, Salo, Villeneuve e Irvine foram aos boxes, uma decisão errada, já que o toró parou logo em seguida. Trulli ainda ultrapassou Alesi, alcançando a sexta posição! Pontos!

E só melhorava: Frentzen, líder da prova, abandonou. Nesse momento, a chuva tinha voltado com mais força, e muitos foram aos boxes - Coulthard, novo ponteiro, não foi. Rodou sozinho e abandonou. Só nisso, Trulli já era quarto e ameaçava um pódio.

E não parava aí: Fisichella, novo líder, também perdeu o controle do carro e deu tchau ao que seria sua primeira vitória. Ralf Schumacher assumiu a ponta, mas não por muito tempo, já que um furo no pneu o tirou de qualquer disputa. O pódio era, já perto do fim, Hebert, Trulli e Barrichello. Todos bastante próximos e com a pista já secando. O inglês abria vantagem, enquanto o italiano segurava o brasileiro.

E isso Trulli sabe fazer bem. O famoso Trulli train, essa habilidade de segurar três, cinco carros por quantas voltas fossem necessárias. Se segurou e deu à equipe de Alain Prost seu último pódio, num ano não muito frutífero - assim como os subsequentes.

Rara felicidade
O ápice

2004 foi um ano bem chato. Após toda a tensão do campeonato de 2003, foi uma decepção. A Ferrari caprichou e Michael Schumacher estava no seu auge, sem cometer alguns erros que quase o custaram seu sexto título.

Não estava nem dando graça. Schumi venceu as cinco primeiras corridas do ano. Mônaco é uma pista que premia os carros mais equilibrados e os pilotos mais calmos e minimalistas. O alemão era tudo isso. Mas não fez a pole, gloria essa que coube a... Jarno Trulli?  Mesmo Alonso, seu companheiro que sempre era mais rápido, largava em terceiro. Michael só em quarto.

Na largada, festa da Renault. Alonso passou Button, enquanto Trulli mantinha a ponta. Michael, maior temor, largou mal e caiu para sexto. É difícil passar em Mônaco, mas ele tentaria dar um jeito. Seu carro era muito melhor, vale lembrar.

Que dia, amigos

Na volta 19, Schumi já era terceiro e vinha tentando diminuir a diferença - apesar de ter perdido muito tempo escalando o grid. Era um trabalho difícil, as Renaults estavam num dia realmente especial. Mas a vida, essa caixinha de surpresas...

Ralf Schumacher, retardatário, não facilitou a ultrapassagem de Alonso no túnel. Fernando foi para a sujeira, perdeu o carro e encontrou o muro. Safety-car. Trulli vai aos boxes; Michael Schumacher não, assumindo a ponta. Só que o alemão fez uma grande cagada.

Ele estava muito rápido quando alcançou o Safety-car, dentro do mesmo túnel que acidentou Alonso. Fritou os pneus e puxou para a direita para evitar o choque, mas Montoya vinha logo atrás e não notou os problemas de Schumi. Os dois tocaram rodas, a Ferrari se descontrolou e achou o mesmo muro do outro acidente. Com isso, Button assumia a segunda posição e ficava colado em Trulli, outra vez em primeiro. Ainda faltavam trinta voltas.

Mas Trulli segurou do jeito que deu. Contou até com a ajuda de Baumgartner, retardatário, que acabou atrapalhando Button, evitando qualquer tentativa de ultrapassagem da BAR. Jarno vencia uma corrida, mas quis o destino que fosse a última. E antes do fim do ano seria demitido da Renault, partindo para novos tempos na Toyota.

A primeira e última vez
A decadência

O ano é 2012. Trulli é piloto da Lotus-Renault, agora conhecida como Caterham. Foram dois anos pilotando uma carroça verde, apanhando de Heikki Kovalainen e tendo como melhores resultados três 13o lugares. Pior até do que quando pilotava uma Minardi, lá em 1997.

Pré temporada. Trulli já está bem incomodado com a estagnação da equipe, que passou dois anos em branco, sem ir a lugar nenhum. Logo no primeiro teste, o CT01 se mostra a mesma desgraça que seus antecessores. Não dá mais. Depois de uns anos relativamente bons com a Toyota, aquela decadência beirava o humilhante.

Novo carro, mesmos problemas
Trulli resolve romper o contrato. Sabia que, sem trazer dinheiro de patrocinadores, a equipe ficaria assim para sempre. Petrov é chamado e preenche a última vaga na F1 2012. Fim de linha para Jarno. É a marca de um piloto que passou dois anos chateado, aborrecido, reclamando de tudo e todos. Desistir antes da temporada começar é a cara do saco cheio. Refletiu bem o ritmo de sua carreira pós-primeira vitória.

*Bônus track - O futuro?

Não dá para incluir o futuro de Trulli na análise de sua vida e carreira - já que nem aconteceu ainda. Mas os próximos anos parecem interessantes.

F-E, vocês estão atualizados? A categoria mais promissora dos últimos tempos (não sei se sou exceção, mas a grande quantidade de ex-F1 no grid me atrai) vai contar com Jarno Trulli, o interminável, no grid. Mais do que isso: vai ser chefe da Trulli GP, equipe com apoio tecnológico da Drayson Racing.

Novos tempos
Se vai dar certo ou obter algum sucesso? É cedo para dizer. O fato de ter uma nulidade chamada Michela Cerruti (???) como companheira de equipe pode facilitar um pouco para o seu lado. Sou otimista, afinal vai ser difícil ser pior que o seu fim na F1.

Boa sorte na nova aventura e feliz aniversário, Trulli!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um dia no passado - 50 anos da maior festa britânica


1964 foi o ano de uma das temporadas mais interessantes da história da F1. Quatro equipes diferentes - Lotus, BRM, Ferrari e Brabham - tinham condições reais de brigar por vitórias e, quem sabe, título. Todos os treinos eram muito disputados; os rendimentos, muito parecidos. Corridas só terminavam quando acabavam, porque as disputas estavam sempre em aberto.

Se você é bom em matemática, pode ter percebido que em 2014 estamos completando 50 anos da disputa desse campeonato. Mas não vou falar sobre o campeonato todo, que mais merecia um livro do que um post num blog. Falo do GP da Inglaterra de 1964, disputado no dia 11/07/1964, em Brands Hatch. Exatos 50 anos atrás. Falemos sobre, pois.

Era um fim de semana tenso, aquele. Jim Clark (Lotus) liderava o campeonato com apenas um ponto de vantagem sobre Graham Hil (BRM). Richie Ginther (BRM) vinha dez pontos atrás, passadas apenas quatro etapas do campeonato. Como os principais adversários pelo título eram britânicos, a corrida em terra natal ganhava contornos de decisão. É que o destino parecia nos reservar uma disputa de apenas dois homens, mas o futuro nos provou que não seria bem assim. A Ferrari, sempre ela, iria se recuperar ao longo do ano.

Rivais e amigos, Clark e Hill eram os expoentes do automobilismo britânico

No treino, aconteceu o normal: Clark na pole. Hill teve que se contentar com o segundo lugar, enquanto Gurney fechava a primeira fila. Mais atrás, Brabham, Surtees e McLaren fechavam os seis primeiros no grid de largada. Aliás, 0,6s separaram os cinco primeiros do grid. Foi apertado.

No dia da corrida, uma festa. GP da Inglaterra era um dos grandes eventos do calendário, com autoridades e alguns famosos aparecendo nos paddocks. Isso não era tão comum nos anos '60, talvez só em Mônaco. Pilotos eram celebridades, mas não se comportavam como. Tinha até uma bandinha que tocava umas marchinhas no grid de largada, no melhor estilo Grand Prix.

Na corrida, Clark largou bem e segurou a ponta. O mesmo não pode ser dito sobre Hill, que perdeu a segunda posição para Gurney. Surtees toma o quarto lugar de Brabham e fica numa boa posição para brigar por um pódio. Mais atrás, Siffert, Amon e Gardner se enroscam e mal saem do grid de largada. Jo e Chris conseguem continuar, mas veem sua corrida ficar muito comprometida.

A alegria de Gurney não foi muito duradoura. O americano teve problemas na ignição que o levaram aos boxes no final da volta 3, caindo para o fim do grid, onde permaneceria até o fim da corrida. As posições de pódio se estabilizavam com Clark na frente, Hill em segundo e Surtees em terceiro. Brabham vinha colado na Ferrari, que não apresentava ritmo para acompanhar os dois ponteiros.

A Ferrari de Surtees

Mas a outra Ferrari, de Bandini, conseguia escalar o grid sem maiores problemas. Tendo caído para sétimo na largada, Lorenzo não tardou em colar na traseira de Black Jack. A ultrapassagem foi facilitada: Brabham rodou, temeu ter danificado a suspensão e foi aos pits. Como o conserto seria inviável num curto espaço de tempo, ele voltou a pista, agora em sétimo. Mas não por muito tempo, pois o carro ainda mostrava competitividade.

Agora a corrida tinha dois pelotões importantes. A encarniçada briga pela liderança e pelo campeonato entre Clark e Hill, Lotus e BRM; a briga por um lugar no pódio entre as Ferraris de Surtees e Bandini, além de Brabham, um intruso que voltava a ganhar velocidade e posições depois do contratempo.

Clark bravamente segurou Graham Hill, que vinha mais rápido nas últimas voltas. No fim, os dois cruzaram a linha de chegada com 1m20s de vantagem sobre os demais. Demais esses que seguiam se engalfinhando até o fim: Surtees conseguiu abrir um pouco mais, mas Bandini não conseguiu acompanhar o ritmo e foi ultrapassado por Brabham. Bem mais atrás, Phil Hill conseguia a última posição dentro da zona de pontos.

Sim, foi um pódio 100% britânico em Brands Hatch. Imagina a festa.

Voltando aos boxes com estilo

No fim das contas, essa corrida foi um ponto chave para o campeonato. Surtees venceria o GP da Alemanha, começando uma arrancada que culminaria num impensável título mundial ao fim do ano. Vale lembrar que, após essa corrida, Clark tinha 30 pontos e o piloto da Ferrari só tinha 10. Foi uma reviravolta absurda numa disputa que ficou aberta até a última volta da última corrida. O que aconteceu nessa volta fica para outro post.

Também diz muito a briga entre Hill e Clark. Os dois se matando por tudo ou nada, enquanto Surtees vinha somando pontos e sendo constante. No fim, esse pensamento fez diferença, à medida que os outros iam abandonando ao longo da temporada.

Independente de campeão, essa temporada marcou o auge da fase de ouro do automobilismo britânico, com três pilotos do país vencendo quase todas as corridas da temporada. E olha que Jackie Stewart só iria estrear em 1965...

Encerrando o post, se você curte vídeos de qualidade dessa época do automobilismo, dê play no link abaixo. Parada obrigatória.