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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O bom filho à casa torna?


A silly season chegou com tudo. Transferência, contratações, demissões, tudo vira assunto e notícia na época do ano em que os rumos de 2015 terminam de ser traçados. São dias tensos e bem interessantes. Particularmente, essa dança das cadeiras nas vagas da F1 é um dos fenômenos que mais chama minha atenção, muito embora a maioria dos boatos não tenha sustentação nenhuma - como o próprio termo indica.

Falemos de rumores, então. Basicamente, tudo gira em torno de duas equipes: McLaren e Mercedes.

A equipe inglesa já não quer mais Jenson Button, veterano, e quer alguém melhor para guiar o retorno da Honda à F1. Vettel e Alonso foram mencionados. Sebastian me parece uma aposta meio surreal, já que a Red Bull dá sinais de recuperação, após um 2014 decepcionante, e o alemão não vai romper seus laços históricos a troco de banana. Já Fernando poderia tentar: a Ferrari não está indo para lugar nenhum e faz uma temporada ridiculous. Complicado é que o relacionamento do espanhol com Ron Dennis nunca foi nenhuma maravilha. A BBC relatou que as conversas entre o asturiano e os prateados existem. Fiquemos de olho. Magnussen, novo e promissor, não se vê ameaçado. É um protegido da equipe de Woking.

A Mercedes vive dias cinzentos. Num clima que vai durar por um bom tempo, Hamilton e Rosberg disputam vitórias com a faca nos dentes e se veem como inimigos mortais. Nessas condições, não é difícil imaginar qualquer um dos dois pulando fora da barca, mesmo que a barca em questão seja a melhor de todas. O curioso, nesse caso, é que ambos tem contratos para 2015. Rosberg tem até 2016, aliás. Mas será que os dois querem ficar? Se um sair, será uma vaga disputada a tapa.

Imagino que Rosberg queira ficar, pelo menos. Está lá há cinco anos, é seu nicho. Por mais que tenha arranjado alguns problemas com a cúpula da equipe não sinto desejo algum da parte dele de debandar, ainda mais com seu contrato recém renovado.

Mas Hamilton já é diferente. Criou-se em uma outra casa e foi para a turma alemã numa decisão que surpreendeu a todos. Logo no segundo ano, todos os problemas possíveis com aquele que era um amigo de infância. Aí fica difícil. Deve estar sentindo falta do antigo empregador. A McLaren. Ligue os pontos com o terceiro parágrafo.

Saudades?
A princípio não existe nenhuma conversa entre as partes, mas faz sentido. Hamilton, acuado, deve estar com saudade de um lugar onde era mais valorizado e sofria menos com rivalidades. Ron Dennis, seu tutor, voltou nesse ano. A McLaren precisa de um piloto para liderar o projeto com a Honda. Num mundo em que Vettel e Alonso, são semi-deuses, seria mais fácil apostar em alguém tão bom quanto (ou um pouco menos) e que já tenha algum retrospecto positivo em Woking.

Os dois lados lidariam com boas chances de ter sucesso. A McLaren teria seu "líder", que desfrutaria das benesses de uma parceria que promete bastante. Seria uma identidade importante num período de reconstrução da equipe inglesa. Já Hamilton, fã de Senna, poderia se sentir ainda mais perto da condição de seu ídolo.

Repito: isso é tudo um exercício de imaginação. Nada é concreto, tudo é aberto e possível. Mas essa possibilidade em especial me soa interessantíssima. Seria o grande barato de 2015.

Ficam aqui os votos do autor. Espero que Ron Dennis leia meu blog.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O novo Rosberg


Nico Rosberg é o grande tema da semana. O alemão supostamente bateu de propósito em Hamilton, ocasionando um furo no pneu e outro nas chances de diminuir a vantagem do companheiro no campeonato de pilotos. O germânico também foi prejudicado, mas em um nível muito menor. Ainda conseguiu levar 18 pontos para casa.

Ficou provado que Rosberg não é mais aquele cara burocrático e meia-boca de outras temporadas. A transformação vem acontecendo desde sua chegada na Mercedes, em 2010, e atingiu seu clímax. Nico, hoje, é capaz de ser um completo canalha, se preciso for. Não que isso seja 100% errado: campeões costumam ser assim. Senna e Schumacher eram, por exemplo.

A surpresa de 2014 é que Rosberg mostrou velocidade durante o ano todo. Fez sete poles contra quatro de Hamilton. Foi também mais constante, tendo ido ao pódio dez vezes e abandonando só uma. Fez 73% dos pontos possíveis É, sem dúvida, desempenho de campeão. Em 2013, com o mesmo número de corridas, Vettel tinha conseguido 74%. Diz muito. Mas Nico nunca tinha mostrado a atitude de um vencedor.

Começando a ter problemas
Um cara rápido é só um cara rápido, não necessariamente um vencedor. Essa competitividade que tomou o alemão ao longo dos últimos tempos pode fazer a diferença. Correr o risco de bater no rival de propósito é muito cretino, mas pode ser necessário. Prost poderia ter perdido o título de 1989 se não fosse cretino. O mesmo vale para Senna em 1990 e Schumacher em 1994. Alonso foi sacana em Hockenheim/2010, mas não obteve sucesso. Foi um risco que não se pagou, paciência.

Não quero dizer que é certo, preferível tomar atitudes duvidosas em detrimento de outros, mas pode ser necessário. Seria muito mais bonito ver Rosberg passando por fora na Combes e ganhando o GP da Bélgica com Hamilton colado atrás. Mas o acidente foi a forma encontrada por Nico. Talvez tenha achado necessário marcar território após os problemas na Hungria - a função do rádio, a fechada de Lewis na últimas voltas (que acredito ser o "ponto" mencionado pelo filho do Keke). Moralmente é errado, mas moral e boa conduta não dão títulos para ninguém.

Passado Remoto
As consequências do alemão não terminam aqui. Ainda temos sete corridas pela frente, uma com pontos dobrados, e veremos muita lenha queimando. Toto Wolff, Niki Lauda e Paddy Lowe tem um problema gigante nas mãos. A zona de conforto já não existe mais, erros significam derrotas. Ricciardo está só esperando as chances, enquanto as flechas de prata se autodestroem. E o culpado de o que quer que ocorra será Rosberg, o vilão da história.

domingo, 20 de julho de 2014

Feelings - GP da Alemanha


  • Rosberg confirmou os prognósticos e venceu com tranquilidade, sem correr riscos. Sua única preocupação foi evitar que, ao fazer seu primeiro pit-stop, Hamilton tomasse a frente, rápido que estava. Não aconteceu, e daí pra frente a corrida ganhou ares de desfile para o piloto monegasco finlandês alemão.
  • Hamilton estava on fire. Trocou o câmbio, para delírio da turma do #WhyAlwaysHamilton, e largou em 20o, na companhia de Chilton. Daí pra frente, só alegria. Mesmo com pneus duros, ia para cima, ultrapassava, batia, ultrapassava mais um pouco, perdia um pedaço da asa. No geral, uma performance para tirar o chapéu. Mas a estratégia não foi boa. Seria mais inteligente usar pneu duro no último stint, ao invés de se sujeitar a dois pits para por pneus macios. No fim, a velocidade final de Bottas acabou com qualquer chance de dobradinha da Mercedes.
  • Que corrida do Bottas. Seguro, maduro, confiante. Ao lado de Ricciardo, é a grande revelação de 2014. Passou a corrida toda em segundo, o que é espetacular, lembrando que ele já vinha de dois pódios. Tem 91 pontos, enquanto...
  • Massa tem 30. Enquanto Massa bate, enquanto Massa capota. Um toque com Magnussen jogou tudo fora em questão de metros. Os dois erraram, mas talvez fosse mais esperto da parte de Felipe uma performance mais conservadora, já que precisa - mais do que tudo - de resultados. Precisa de uma benzedeira.
    Whoops...
  • Alonso faz uma temporada abaixo do normal, mas constante. Pontua sempre e agora também se diverte. Depois daquela super disputa com Vettel, outra digna de elogios com Ricciardo. Dois pilotos de alto nível fazendo tudo que podem por mais pontinhos. É o que restou, mas esse serviço é feito com primazia. Os dois vêm batendo os companheiros constantemente.
  • Uma breve nota sobre Vettel: em casa, foi burocrático. Fez a sua parte, mas nunca muito mais brilhante que isso. Pelo menos ficou na frente de Ricciardo, coisa que nunca tinha alcançado sem um abandono de Daniel.
  • Force India sofre um pouco. Depois de performances grandiosas nas primeiras corridas, um retrocesso. Vai catando as migalhas de nonos, décimos lugares, enquanto vê uma McLaren crescendo e quase tomando o quinto lugar no campeonato de construtores. Quando voltarmos às pistas rápidas - Spa e Monza - deve voltar aos bons dias. Hungaroring será tão meia-boca quanto Hockenheim.
  • Räikkönen, outro fiasquinho. Sempre que eu olhava pra TV, lá estava ele sendo ultrapassado, em primeiro ou segundo plano. Uma xicará de café, uma ultrapassagem; uma ida ao banheiro, outra ultrapassagem. Terminou em 11o, o que representa bem o seu ano: medíocre.
  • Maldonado quase pontuou, eu juro. Não tive uma alucinação, não preciso de óculos. Mas depois perdeu ritmo e terminou em 12o. Pelo menos tem um contrato para 2015 - só porque eu disse que isso não aconteceria no último post.
  • Sutil chamou a atenção. Não por causa de uma super-performance, mas por que rodou sozinho. O carro ficou atravessado na pista, o safety-car parecia óbvio, mas não entrou. A turma da conspiração - que é a mesma do #WhyAlwaysHamilton - já concluiu que foi para evitar os riscos de Rosberg perder uma corrida em casa. Talvez, é difícil dizer. Situações bem menos escandalosas já exigiram a intervenção. Ficamos com uma pulga atrás da orelha.
  • A chuva ficou só na vontade. Choveu antes, choveu depois. Podia embaralhar as coisas. Uma pena, já que a última corrida molhada foi na Malásia, ano passado.
Aplausos
Piloto do dia: Hamilton, que escalou o grid como poucos fariam. Tem um carro bom, mas isso não significaria nada sem uma pilotagem acima da média. Garantiu o entretenimento do GP.

Equipe do dia: Williams, que não pára de evoluir. Óbvio que a Mercedes ainda é melhor que todos, mas o FW36 teve um dia muito bom para uma pista que não é a mais veloz do calendário - sua especialidade. Um certo piloto brasileiro deixou a desejar, mas o trabalho da equipe é impressionante e digno de comemoração em Grove. Aliás, hoje conseguiu seu pódio 300.

Piloto lamentável do dia: Räikkönen, dono de uma pilotagem mais feia que as sobrancelhas do Alonso. Simplesmente não está funcionando dentro da Ferrari. Bianchi sorri.

Equipe lamentável do dia: Sauber, que só afunda na mão de seus pilotos sem brilho e seu carro problemático.

sábado, 19 de julho de 2014

Feelings - Treino do GP da Alemanha

  • Pole do Rosberg, mas não foi tão tranquilo ou óbvio. Levou uma pressão nos últimos minutos. Não de Hamilton, mas sim de Bottas. Em certo instante, ver a Mercedes sem a pole em casa parecia realidade. Mas foi só impressão: com ou sem FRIC, o W05 ainda é o melhor carro.
  • Mas aonde estava Hamilton, se não brigando pela pole? No centro médico. Uma pancada de respeito nas curvas do estádio foi o suficiente para quebrar aquela tranquilidade da vitória em Silverstone. Largando em 16o, virou azarão. Eventualmente vai aparecer entre os cinco primeiros mas, em condições normais, o pódio é duvidoso. O ritmo das Williams está bem acima do que se esperava. Se não for pro tudo ou nada, volta a ver a vantagem de Nico crescer bastante.
  • Sem palavras para o ritmo das Williams. De Bottas, em especial. Deu um sufoco em Rosberg e os dois pilotos são sérios candidatos ao pódio, mesmo que essa pista não seja tão favorável para o carro inglês. Sou leigo quanto a suspensão, mecânica de um F1, mas vejo a Williams como a grande favorecida com o fim do FRIC.
    Surpresinha
  • Magnussen merece aplausos. Segunda corrida consecutiva em que larga no Top 5, mas dessa vez com o companheiro sendo eliminado no Q2. Nas pistas que conhece melhor, fruto de anos no automobilismo de base, ele cresce. Aliás, palmas para a McLaren, cujo carro dá sinais de melhora.
  • Button pode estar vendo sua carreira desmoronar. Me lembro que todos achavam que sua vida sem Hamilton como companheiro de equipe seria facilitada, que poderia ganhar outro título. Nada disso aconteceu, muito pelo contrário. E não é só porque o carro não é tão bom. Jenson vem decrescendo ao longo do ano, virando um piloto meio burocrático. Pode estar sendo aposentado pelo Magnussen. Já é um forte candidato à temporada 2015 do seguro desemprego.
  • Red Bull, mesma coisa. Sempre muito perto, sempre muito longe. Faz o arroz com feijão, tentando levar pontos para casa. Ricciardo bateu Vettel, mas não sei se pode bater os que estão adiante. Torcem por chuva
  • Se Magnussen aposenta Button; Kvyat aposenta Vergne. O russo vem sendo uma constante no Q3, batendo o francês, que nunca foi muito bom em voltas rápidas. Só falta transformar isso em pontos, e amanhã é um bom dia para tal.
  • Force India ficou meio abaixo. Nunca teve muito conforto, sempre passando de fase com dificuldades. Hoje, não teve como escapar do fundão do Q3. Sua esperança é que faça muito calor e eles possam montar uma estratégia com menos pit-stops.
  • Raikkonen está de saco cheio. Quer ir para casa, fazer outras coisas. Tá louco para ver a temporada acabar. Só isso justifica essa apatia. Outra vez foi presa do Alonso, outra vez ficou pelo caminho. Bianchi sorri.
  • Maldonado conseguiu a proeza de ficar atrás de uma Marussia. Merece aplausos. Temporada mais bisonha dos últimos tempos, dentre todos os pilotos, com sobras. Só um milagre, uma reencarnação de Chávez mantém ele na F1 em 2015.

E Amanhã?
  • Com tempo seco, dá Rosberg, com Bottas em segundo. Com chuva - uma possibilidade real - embaralha tudo: Williams diminui e Red Bull cresce. 
  • Nessa situação, seria uma corrida acidentada: os pilotos ainda não correram sob chuvas com esses carros, quando muito fizeram treinos. Ainda existe uma possibilidade de erros bem grande.
  • Hamilton torce por tempo seco. Sob chuva, não terá a ajuda amiga do DRS para escalar o grid - como Vettel em Abu Dhabi - 2012.
Aposta do autor
  • Tempo seco: ROS - BOT - VET
  • Tempo chuvoso: VET - ROS - MAG (é improvável, mas é uma aposta)

domingo, 6 de julho de 2014

Um dia completo (Corrida - GP da Inglaterra)

Que corrida. Teve tudo: acidente forte, bandeira vermelha, líder abandonando, disputas ferrenhas. E nem choveu.

Era difícil imaginar que teríamos um dia tão divertido e movimentado como o de ontem. O sol tinha aparecido com força e nem de longe lembrava o tempo feio do sábado. Ferrari e Williams ficaram felizes, sabiam que em condições normais poderiam escalar o grid e brigar por pontos. Rosberg tinha motivos para temer pois, em condições normais, Hamilton rapidamente estaria na sua cola.

Mas essas expectativas todas ficaram para depois. Uma hora depois.

Ainda na primeira volta, na curva 4, Räikkönen perdeu um pouco de tração. Pneus frios, vocês sabem. Não conseguiu se segurar e escapou da pista. Com alguma imprudência, voltou para a pista no primeiro momento possível, em alta velocidade. Aí, perdeu o controle do carro, atravessou a pista, rodou e trancou a nossa respiração. Kobayashi e Massa foram vitimados pelo finlandês estabanado. Com sorte, todos ficaram bem, apesar de um corte no tornozelo de Kimi. Fim de corrida para o brasileiro e o nórdico. Guard-rail danificado, uma hora de bandeira vermelha.

Ouch

Não quero que me vejam como um crítico assíduo de Kimi, mas é mais um momento conturbado em sua temporada. Devia esperar os outros carros passarem, e então regressar a pista com segurança. Não soube julgar corretamente a situação e pagou caro por isso. Cabe também um elogio a Massa e Kobayashi, que evitaram um acidente em T com a Ferrari. Naquela velocidade, Räikkönen poderia se machucar com mais gravidade. A célula de sobrevivência é muito forte, mas a cabeça do piloto ainda é muito exposta.

A posições tinham mudado bastante. Rosberg ainda liderava, mas Hamilton era quarto, Vettel era sexto, Bottas era nono e Alonso era 12o. Esses seriam os protagonistas da corrida.

Hamilton não precisou de muito tempo para passar as duas McLarens e assumir a 2a posição, 5s atrás de Rosberg. Button se manteve em 3o por um bom tempo enquanto Magnussen regredia. Bottas e Alonso, mais atrás, faziam todas as ultrapassagens em todos os pontos do circuito. Logo estavam entre os cinco primeiros. Não só demonstraram que estavam num bom dia, mas também que estão em grande fase - mesmo com os carros inconstantes que pilotam.

Aí começaram os problemas para Alonso. Ele tinha se adiantado na hora de tomar posição na largada e levou um stop-and-go. Bottas tinha caminho livre para ser o melhor piloto não-Mercedes, já que aquela não era a melhor performance da história da Red Bull. Massa chorava nos boxes e era consolado por Eric Clapton, enquanto comia o bolo em comemoração dos 200 GPs.

Lá na frente, Rosberg ia aos boxes. Tinha escolhido uma estratégia de dois pits, enquanto Hamilton faria um só - estratégia correta, do meu ponto de vista. Não haveriam grandes disputas, porém. O câmbio traiu Nico, que pela primeira em 2014 vez voltaria para casa sem pontos.

Não entendo muito de mecânica para palpitar sobre o abandono. Só acho que Rosberg estava arriscando muito. Estava tentando ser mais rápido que Hamilton, mesmo com um carro problemático. É aquela gana de bater o companheiro, adversário pelo campeonato, entendo. Mas talvez fosse mais esperto se poupar e tentar segurar alguns pontos - 8o, 9o lugar. No fim do ano, meia dúzia de pontos podem fazer uma diferença tremenda.

E você pode até procurar um significado nisso. Torcedor do Rosberg: aviso que, em 2013, Vettel só abandonou um GP, o da Inglaterra. Venceu o título com facilidade. Torcedor do Hamilton: em 1988, Prost abandonou pela primeira vez no GP inglês, e ali Senna começou a garantir o seu primeiro campeonato. Escolha o que acreditar.

Melhor momento do dia

Depois, a corrida se resumiu a uma briga entre Vettel e Alonso. O alemão tinha feito uma escolha errada de estratégia, largando com pneus duros e tendo pouco ritmo. Alonso se recuperava da punição. Por isso eram apenas 5o e 6o. Quis o destino que eles se cruzassem. Que momento.

Vettel vinha dos boxes e não tinha os pneus aquecidos. Alonso se aproveitou e passou na pista. Mas Sebastian tinha mais carro. Só faltava concretizar uma ação, uma ultrapassagem. Tocavam pneus, se espremiam, mas a ordem se mantinha. Até que a Red Bull saiu com mais velocidade da Luffield e passou na Copse.

Alonso chiou. Disse que Vettel tinha usado a asa-móvel onde não podia, que tinha espremido, que era feio e tinha cara de mamão. Não sei o que os comissários vão decidir, mas não duvido que alguém seja punido. Os dois estavam sempre saindo da pista, atacando as zebras com mais vigor do que deviam - ultrapassando os tais "limites da pista". Mas foi uma disputa linda, de qualquer jeito. Os dois podem se orgulhar (e também lamentar, já que são os dois melhores pilotos do grid e tem dois carros meia-boca).

No fim, Hamilton segurou a ponta, Bottas confirmou uma tarde excelente com seu melhor resultado na carreira e Ricciardo - apagado - segurou uma terceira posição, depois de um dia sem grandes emoções.

Ah, e Maldonado bateu. Ou foi batido, por Gutiérrez. Abandonou na penúltima volta. Realmente, não faltou nada nessa corrida.

Chega de zica

E o campeonato?

Temos uma disputa. Rosberg perdeu toda sua vantagem e vê Hamilton colado, quatro pontos atrás. Quase nada, considerando que um vitória vale 25 pontos e já estamos quase na metade do campeonato. Se Rosberg abandonar na Alemanha e Hamilton chegar em 8o, já é o líder. Aliás, Hockenheim vai viver um domingo decisivo: toda aquela energia a favor de Hamilton vai se virar contra. Se Lewis abandonar, todos vão gritar, se abraçar e jogar cerveja para cima.

Só mais uma coisa: a cada dia que passa, eu tenho mais medo dos efeitos que os pontos dobrados de Abu Dhabi podem ter no campeonato. Tenho a péssima sensação de que isso não vai ser tão bom assim para a competição, como um todo. Se uma das Mercedes abandonar e a outra ganhar, podemos ver um campeão com mais de 50 pontos de vantagem sobre o vice. E isso não traduziria, de forma alguma, a disputa ferrenha pelo título.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Perdido no Tempo

Foi confirmada na manhã de hoje a surpreendente aposentadoria de Ross Brawn, antigo diretor técnico da Ferrari e da Benetton, além de bem-sucedido dono da Brawn GP. Acaba a carreira de um dos homens mais conhecidos da F1 moderna. Mas não acaba em alta.

Após a venda da Brawn à Mercedes, Ross deixou de ser o dono da brincadeira para ser "apenas" mais um cara importante dentro de uma equipe de ponta. O problema é que, no últimos tempos, sobravam caras importantes lá dentro. O nicho do velho homem fora atacado por gente do calibre de Niki Lauda e Toto Wolff. Num mundo de alta competitividade e disputa de poder, alguém ia sobrar.

Preocupado?
Em 2012, o ex-chefe de equipe já não mandava tanto, e a Mercedes, pressionada por resultados, não tinha um futuro tão certo assim. Schumacher, que veio prometendo ser aquele piloto de outrora, fracassara. Nenhuma chance real de vitória tinha aparecido. Com isso tudo de negativo, uma simples canetada vinda de Stuttgart acabava com o dinheiro que sustentava a equipe.

Quis o destino que o outro lado da gangorra subisse. Rosberg venceu o GP da China e colocou as flechas de prata, definitivamente, entre os times de ponta da categoria. Esse processo continuou em 2013, com a vinda de Hamilton e mais três vitórias. O poder dentro do time valia cada vez mais. Sem o apoio do amigo Michael, agora aposentado, Brawn se viu encurralado dentro de um time que devoraria qualquer um que pisasse em falso.

Ross pisou.
Começo do fim
O GP da Malásia ficou marcado pelo jogo-de-equipe. Vettel  passou Webber, descumprindo ordens da Red Bull. Em segundo plano, Hamilton era protegido por Rosberg, que não poderia ultrapassar o inglês. As ordens vinham da Mercedes, via Ross Brawn. O problema é que o time alemão não era a Ferrari pra achar essa estratégia correta. Lauda e Wolff bufaram; Lewis e Nico ficaram com cara de bunda. Um desentendimento na cúpula era tudo que faltava pra mandar Ross pro espaço, como de fato aconteceu.

Ross não queria sair. Foi vitimado pelo seu pensamento conservador e, de certa forma, retrógrado. Talvez tenha pensado que o que foi feito quanto a estratégia e planejamento na Ferrari de Schumacher, Todt, Byrne e o próprio Brawn funcionaria em qualquer lugar. O clima da Mercedes era hostil demais para o seu funcionamento, acostumado com a camaradagem das escuderia italianas. Coincidência ou não, ele só logrou sucesso em equipes não-italianas quando era o dono.

Perdido no tempo, mas ainda assim um cara tradicional e que deixa muito mais marcas positivas que negativas. Ross Brawn vai, o legado fica.

domingo, 11 de agosto de 2013

Type C - Um dos carros mais incríveis da história (Parte 2)

Depois de analisar o contexto da época, hora de falar do carro em si, motivo desses posts. Type C (usado em 1936 e '37) é o terceiro bólido - duh - dos quatro que a Auto Union desenvolveu para as corridas de Grand Prix. Sucessor do Type A ('34) e do Type B ('35), e antecessor do Type D ('38-'39), foi uma revolução nos conceitos de formulação e desenvolvimento de um carro. Desde os de corrida até os esportivos mais comuns que você vê nas ruas das metrópoles.

A palavra de ordem na concepção do Type C foi "inovar". Mas onde, exatamente? Vou começar pelo motor, parte mais fácil de ser analisada.

O conceito visto como "certo" da época era o de motor dianteiro. As válvulas, os cilindros e a potência ainda variavam muito - como é até hoje - mas o motor sempre estava lá, junto aos pés do piloto, o que de certa forma era até perigoso (mas ninguém se importava muito com isso na época, sejamos francos). A Auto Union resolveu, através de pesquisas (que envolvem até Porsche, numa relação entre as duas marcas, mas que não será abordada aqui) passar o motor para exatamente atrás do acento do piloto, ficando na porção central do bólido e, consequentemente, distribuindo melhor o peso na máquina e facilitando outras questões técnicas ainda mal-resolvidas. Não é a toa que esse conceito passou a ser chamado de "motor central". Deu tão certo que, mais de 70 anos mais tarde, esse posicionamento deixou de ser uma opção para ser obrigatório em 99% dos carros esportivos que existem. Essa mudança toda ainda trouxe, de quebra, uma sutil queda no peso total.
A novidade do ano: motor central
O motor do Type C era muito especial, aliás. Era um assustador V16 de 527 HP (para comparar: os motores da F1 são, desde 2006, V8 e tem aproximadamente 800 HP), que assombrava as intermináveis retas do circuitos da época e brigava pau-a-pau com a Mercedes para bater recordes de velocidade final. A inovação, tanto em potência como em posicionamento, foi um grande desafio para os pilotos do novo carro, que não sabiam ao certo como lidar com ele.

Outro ponto que também merece destaque na concepção desse carro é a suspensão. Tanto a dianteira como a traseira passaram a ter um sistema com eixo duplo, que conferiu maior dirigibilidade ao modelo. Haviam também pequenos aparatos aerodinâmicos acoplados à suspensão dianteira, gerando um efeito semelhante ao feito pelas asas dianteiras dos F1 atuais. Resultado de muitas visitas ao Instituto Alemão de Aerodinâmica.

Na pista, os principais encarregados de dirigir o Type C seriam pilotos como Bernd Rosemeyer, Hans Stuck (pai de Hans-Joachim Stuck, futuro piloto de F1) e Rudolf Hasse. A concorrência, basicamente a Mercedes e a Alfa Romeo teriam que se virar com suas versões defasadas, contra um carro que prometia bastante.

O começo do ano foi curioso: o Type C conseguia excelentes resultados... quando não tinha problemas mecânicos. Exemplos do 1o caso foram as corridas da Alemanha e da Suíça, com vitórias fáceis de Rosemeyer. Exemplos do 2o foram os GP da Tunísia e da Hungria, em que Rosemeyer teve séria queda de ritmo durante a corrida. Coincidentemente, o Auto Union de Rosemeyer não enfrentarou nenhum grande problema mecânico em nenhuma das corridas que contavam pontos, o que assegurou um título fácil para ele. Quando Bernd não ganhava, as migalhas caiam no colo da Alfa Romeo e de um força crescente, uma tal de Ferrari...
Rosemeyer vencendo: (relativamente) normal em 1936
Em 1937, o Type C continuou seu trabalho, mas ia enfrentar a nova máquina. A nova Mercedes, a W125 vinha para monopolizar, e o fez. Apenas uma corrida foi vencida pela Auto Union, o GP da Bélgica. O que se viu no resto foi uma festa de Caracciola.

Para 1938, o regulamento dos Grand Prix mudou bastante, e o Type C já não estava mais apto para correr. Feitas as mudanças, o novo bólido passou a se chamar Type D. O sucesso desse modelo nunca foi grande, mas deu para garantir o título de 1939 para Hermann Müller (de forma não oficial, tendo em vista que a 2a Guerra Mundial começou antes do fim do campeonato).

 Começada a guerra, a Auto Union - e futuramente, a Audi - nunca mais participaria do que hoje conhecemos como F1. O sucesso viria no Endurance, onde venceu 12 das últimas 14 edições. Mas convenhamos que é muito mais divertido falar de Bernd Rosemeyer do que de Tom Kristensen.

sábado, 10 de agosto de 2013

Type C - Um dos carros mais incríveis da história (Parte 1)


Quando pensamos em carros multicampeões no automobilismo nos vêm à cabeça exemplos como as Ferraris do começo dos anos 2000, com as quais Schumacher foi Pentacampeão, ininterruptamente, de Formula 1; pensamos também na McLaren de 1988, vencedor de 15 das 16 corridas da temporada e carro do 1º título de Senna; pensamos na Williams de 1992, definida pelo próprio Ayrton, trucidado pelo carro de Frank Williams, como um carro de outro planeta. Muitos se esquecem, porém, de um dos períodos mais folclóricos do automobilismo, as corridas Pré-2ª Guerra, onde brilhavam as máquinas de Mercedes e Auto Union (base do que hoje é a Audi).

É preciso contextualizar o período. O pré-guerra é conhecido como um momento de grande crescimento industrial da Alemanha, já dominada por Hitler e, consequentemente, nazista. O setor automobilístico sofreu um grande boom, um crescimento sem precedentes. As grandes marcas alemãs que conhecemos hoje – Volkswagen, BMW, Porsche, Audi e Mercedes – são originárias (ou ganharam forma) desses dias. A superioridade alemã era tão gritante que, num espaço de cinco anos, apenas um time não-alemão venceu uma – e somente uma - corrida.

O esporte a motor também era diferente. Formula 1, como conhecemos hoje, não passava de um sonho distante, que só seria concretizado em 1950. O que existia nos anos ’30 eram as corridas de Grand Prix, que era um “campeonato” muito mais informal e menos restritivo do que o que vemos hoje. Nos tempos mais áureos desses períodos, haviam sete corridas que contavam pontos para o campeonato e dezenas de "non-championship races" que tinham poucos competidores e não contavam pontos. Um fator que tirava a credibilidade da disputa era a falta de padrão: cada organizados poderia definir quais seriam os pré-requisitos e padrões dos carros para que estes fossem aptos a correr
Um dos nossos heróis: Bernd Rosemeyer


O conceito de equipe também era bastante diferente: se viam três, quatro marcas que montavam os carros, ou para uso próprio ou para ceder para algum insano que quisesse se aventurar e competir com carros velocíssimos (não se engane, nessa época as pistas usadas eram, na sua maioria, autoestradas e os carros chegavam aos 300 km/h com certa facilidade nas retas intermináveis). As grandes equipes da época eram Alfa Romeo, e as supracitadas Mercedes e Auto Union.

Os pilotos também eram outros, claro. A única semelhança com os dias atuais é que os alemães estavam dominando. Rudolf Caracciola, Bernd Rosemeyer e Hermann Lang eram os ídolos daquele automobilismo ainda meio amador, ainda em formação. Havia um italiano chamado Tazio Nuvolari, que era o Jarno Trulli da época (cof cof cof). Falando sério: essa é uma época que existiam pilotos italianos muito bons, não se surpreenda.

Feita a volta de apresentação, a largada é dada amanhã, quando vou falar do motivo desta postagem - o Type C. Aguarde.